quinta-feira, 28 de junho de 2012

Se eu fosse uma sapatilha de ponta

Se eu fosse umas sapatilhas de ponta começaria os meus tempos numa pequena lojinha de bairro. Estaria embrulhada em papel celofane, dentro de plástico selado com uma imagem de uma bailarina em pontas e a marca rabiscada por baixo.
Um dia, chegaria à loja uma pequena rapariga com cerca de 13 anos, de coque e ainda equipada vendo-se claramente que teria saído da aula.
- Bom dia. Posso ajudar?- Perguntaria a senhora já idosa que tinha aquela lojinha há tantos anos e já tinha visto tantos pequenos aprendizes como aquela rapariga.
- Bom dia! Procurava umas pontas, de tamanho 35.- Respondia a rapariga orgulhando-se do que estava a pedir.
Então a senhora iria-me buscar à prateleira e dava-as à rapariga. Esta, com todo o cuidado abriria o saco e eu deslizaria suavemente para as suas mãos delicadas. Ela, com suavidade calçaria-me e as minhas fitas deslizariam pelos seus collants até ela mas apertar num nó; nem muito frouxo para não torcer o pé; nem muito apertado para não lhe cortar a circulação. Depois, apoiada a uma cadeira cautelosamente ergueria-se nas pontas, deixando observar um belo cou-de-pied e ficaria com um sorriso estampado no rosto. Depois pagaria-me e levaria-me, pensando que eu era a o seu tesouro mais precioso.
E assim, corria a vida, ela elevando-se em mim todas as aulas e partindo-me cada vez mais... E chegou a altura do seu 1º espectáculo, onde iria interpretar a variação de Giselle do 1º Acto. Ela muito nervosa, suspirava e então...entrava no palco; e eu rodopiava e saltava como nunca o tinha feito.
Passado uns tempos, eu deixaria de lhe servir, mas estaria sempre com ela, e sempre na sua mala até na primeira vez que ela entraria na Ópera de Paris.
Já era "a minha bailarina" muito idosa e já reformada, quando me daria a uma das suas alunas predilectas, que eu observava pacientemente da sua estante, ao lado de fotos e de dedicatórias. E assim, começaria a minha nova aventura nas mãos de um bela jovem sonhadora.
E seria motivo de histórias, lágrimas, risos e principalmente de dores, mas nunca me esqueceria daquela pequena rapariga na loja, orgulhando-se de mim...



As minhas pontas, o meu pé, o meu cou-de-pied

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